São 22:23. Estou de calcinha sentada sobre uma cadeira desconfortável, a coluna torta, a janela da largura de uma parede completamente aberta, entra vento fresco, que sinto tocar minhas bochechas vermelhas pela cerveja. Estou bêbada.
O caminho de volta não foi fácil: tropeçava no cimento desastrada, aquela perna manca, a direita, andei um pouco no meio da avenida Adhemar de Barros enquanto os carros vinham longe, faróis acesos, 60 quilômetros por hora por causa do limite de velocidade.
Eu estava lá, com todas elas e um par de estranhos. Saí fora dizendo que “ia ali” e não voltei mais, dei um “migué” nelas, ao que ligaram para meu celular cinco ou sete vezes incansavelmente, meu celular faz um barulho de sapo quando toca, mas eu não atendi.
No caminho passei pelo Sesc, uma casa de cultura onde a gente encontra tanta gente moderna e (pseudo) intelectual. Estava tocando algo estilo mangue town e me aproximei como que atraída pelo som, mas não me deixaram entrar porque era preciso ter ingressos e eles custavam vinte reais cada um, - “faz tempo que começou?”, “sim, já vai acabar”, “ta legal, obrigada”, e fui embora. Cortei caminho pelo Parque Santos Dumont e senti uma vontade filha da puta de mijar. Quando me aproximei do banheiro uma criatura cuja idade não deduzi me disse que estavam colocando veneno no banheiro. – “veneno pra quê?”, “pra insetos”, “ah... espero que eu consiga chegar em casa porque estou muito apertada.”. Cerveja miserável... Tomei sem que estivesse verdadeiramente gelada.
Uma dúvida ali, outra aqui, uma leve sensação de culpa, vontade de dormir e de fazer uma viagem longa o bastante para não mais fazer parte daqui e deste instante. Não quero vomitar, não quero paz.
Logo a bebedeira vai passar e se estou ciente disso é que ela já está perdendo seu efeito, recupero aos bocados minha consciência... São 22:37, já se foi minha inspiração, sigo sonolenta e de bochechas quentes. Amanhã trabalho cedo e um novo ano já vai começar.

